Loratadina, cetirizina, dexclorfeniramina — qual escolher, quando usar e o que nunca dar para bebê.
Era uma manhã de primavera quando meu filho acordou com os olhos inchados, espirros em série e uma mancha avermelhada no braço. Olhei para ele, olhei para o armário de remédios — e travei.
Não porque não soubesse o que fazer. Mas porque antialérgico para criança pequena tem mais nuance do que parece, e eu queria ter certeza antes de dar qualquer coisa.
A verdade é que antialérgico é um dos medicamentos mais usados — e mais mal usados — na pediatria. Mãe dá para criança dormir, para ‘desinflamar’, para tosse, para tudo que parece alérgico. E nem sempre é a escolha certa.
Vou te explicar como cada antialérgico funciona, qual é seguro para cada faixa etária, e quando realmente faz sentido usar — com base em evidência, não em achismo.
Primeiro: o que é uma reação alérgica e por que ela acontece
Alergia é uma resposta exagerada do sistema imunológico a substâncias que, para a maioria das pessoas, são inofensivas — pólen, pelo de animal, ácaros, alimentos, picadas de inseto, medicamentos.
Quando o organismo entra em contato com o alérgeno, libera histamina — uma substância que desencadeia os sintomas clássicos: coceira, espirros, coriza, olhos vermelhos, urticária, inchaço.
É aqui que o antialérgico entra: ele bloqueia os receptores de histamina, reduzindo ou prevenindo esses sintomas. Por isso o nome técnico é anti-histamínico.
| 📌 Importante entender: Antialérgico trata sintoma — não causa. Se seu filho tem alergia recorrente, o ideal é identificar e evitar o alérgeno, não apenas medicar os sintomas toda vez que aparecerem. Para alergias persistentes, o pediatra pode encaminhar para avaliação com alergologista. |
Primeira e segunda geração — a diferença que muda tudo
Os anti-histamínicos são divididos em gerações — e essa divisão importa muito na hora de escolher o medicamento certo para uma criança.
| 1ª geração | 2ª geração | |
| Exemplos | Dexclorfeniramina, difenidramina, prometazina | Loratadina, cetirizina, desloratadina, fexofenadina |
| Efeito sedativo | Alto — causa sonolência intensa | Baixo ou ausente |
| Duração do efeito | 4 a 6 horas | 12 a 24 horas |
| Frequência de dose | 3 a 4x ao dia | 1x ao dia |
| Uso em crianças pequenas | Contraindicado em menores de 2 anos (prometazina: menores de 2 anos proibida) | Mais seguro — preferido em pediatria |
| Efeitos adversos | Sedação, boca seca, retenção urinária, taquicardia | Bem tolerado — raros efeitos adversos |
| ⚠️ Atenção — prometazina: A prometazina (Fenergan) está proibida para crianças menores de 2 anos pela Anvisa. O risco de depressão respiratória e morte é real nessa faixa etária. Mesmo em crianças maiores, deve ser usada com cautela e sempre com prescrição médica. Nunca use prometazina para ‘fazer a criança dormir’ — essa prática é perigosa e não tem justificativa médica. |
Antialérgicos seguros para crianças — por faixa etária
| Medicamento | Idade mínima | Posologia geral | Observação |
| Loratadina | A partir de 2 anos | 1x ao dia | Primeira escolha em pediatria — sem sedação |
| Cetirizina | A partir de 6 meses (com cautela) | 1x ao dia | Pode causar leve sonolência em alguns casos |
| Desloratadina | A partir de 1 ano | 1x ao dia | Metabólito ativo da loratadina — boa tolerância |
| Fexofenadina | A partir de 6 anos | 1x ao dia | Sem sedação — boa opção para escolares |
| Dexclorfeniramina | A partir de 2 anos (com cautela) | 3 a 4x ao dia | 1ª geração — sedação significativa, uso restrito |
| Hidroxizina | A partir de 1 ano (uso específico) | Conforme prescrição | Uso dermatológico e ansiolítico — sempre com prescrição |
| 📌 Regra de ouro: Doses de antialérgico para crianças são calculadas por peso — não por idade. Sempre confirme a dose com o pediatra ou farmacêutico antes de administrar. |
Quando o antialérgico está indicado — e quando não está
Antialérgico não é remédio para qualquer situação que pareça ‘inflamatória’. Veja quando faz sentido e quando não faz:
| Situação | Antialérgico indicado? | Por quê |
| Rinite alérgica | ✅ Sim | Reduz espirros, coriza e coceira nasal |
| Urticária (manchas na pele com coceira) | ✅ Sim | Bloqueia a histamina responsável pela reação |
| Conjuntivite alérgica | ✅ Sim | Alivia coceira e lacrimejamento — colírio específico pode ser necessário |
| Reação alérgica a alimento leve | ✅ Sim | Para sintomas cutâneos leves — anafilaxia exige adrenalina |
| Picada de inseto com inchaço local | ✅ Sim | Reduz coceira e inchaço localizado |
| Tosse sem componente alérgico | ❌ Não | Antialérgico não trata tosse infecciosa |
| Resfriado comum | ❌ Não | Não há evidência de benefício em resfriado viral |
| Para fazer a criança dormir | ❌ Jamais | Sedação não é indicação terapêutica — é risco desnecessário |
| Anafilaxia (reação grave) | ❌ Insuficiente | Emergência — adrenalina é o tratamento de primeira escolha |
Loratadina x Cetirizina — qual escolher
Essa é a dúvida mais comum. As duas são de segunda geração, seguras e eficazes. A diferença prática:
- Loratadina — sem sedação na maioria dos casos, aprovada a partir de 2 anos, disponível no SUS. Primeira escolha para rinite alérgica e urticária em crianças.
- Cetirizina — aprovada a partir de 6 meses com cautela, pode causar leve sonolência em alguns casos. Boa opção para crianças menores de 2 anos quando indicada pelo pediatra.
- Desloratadina — aprovada a partir de 1 ano, sem sedação, boa tolerância. Opção intermediária entre as duas.
Para a maioria das situações alérgicas em crianças acima de 2 anos, loratadina é a primeira escolha. Abaixo de 2 anos, converse com o pediatra — cetirizina pode ser indicada em doses ajustadas.
Como dar o antialérgico corretamente
- Loratadina e cetirizina — preferencialmente em jejum ou estômago vazio para melhor absorção
- Xaropes — use seringa dosadora, nunca colher de cozinha
- Comprimidos — a maioria só é adequada para crianças acima de 6 anos que já conseguem engolir
- Horário fixo — para alergias crônicas, dar no mesmo horário todos os dias mantém o efeito estável
- Não dobrar a dose se esquecer — apenas dar a próxima no horário habitual
Alergia alimentar em bebês — cuidado especial
Se seu filho teve uma reação após comer algum alimento — urticária, vômito, inchaço nos lábios ou dificuldade para respirar — o protocolo é diferente:
- Reação leve (urticária localizada, sem outros sintomas) — antialérgico oral pode ser usado como suporte
- Reação moderada a grave (urticária generalizada, vômitos, chiado, inchaço no rosto) — pronto-socorro imediatamente
- Anafilaxia (queda de pressão, dificuldade respiratória grave, perda de consciência) — adrenalina e emergência médica
Para crianças com histórico de reações alérgicas alimentares graves, o pediatra pode prescrever adrenalina autoinjetável (EpiPen) para uso de emergência. Converse com o especialista.
Se a alergia alimentar apareceu na introdução alimentar, veja como manejar alergênicos em Introdução alimentar: BLW, papinha ou os dois?.
O que nunca fazer
- Dar prometazina para criança menor de 2 anos — proibido pela Anvisa, risco de morte
- Usar antialérgico para sedar a criança — não é indicação médica e tem riscos reais
- Dar antialérgico de adulto para criança — concentrações incompatíveis
- Usar antialérgico para tratar resfriado — sem evidência de benefício
- Ignorar reação alérgica grave esperando o antialérgico fazer efeito — anafilaxia é emergência
- Manter uso crônico sem reavaliação médica — alergias mudam com o tempo e o tratamento deve ser revisado
- Comprar antialérgico sem informar ao médico outros medicamentos em uso — interações existem
Se a reação alérgica veio acompanhada de febre, veja qual antitérmico é mais adequado em Dipirona, ibuprofeno ou paracetamol: qual dar para criança e quando?
Se a tosse que apareceu junto parece ter componente alérgico, veja como diferenciar em Xarope para tosse em criança: o que a Anvisa proibiu e o que funciona
E se você está amamentando e precisa tomar antialérgico, veja o que é seguro em Remédio passa pelo leite materno? O que a ciência diz
Quando ir ao médico — não espere
- Primeira reação alérgica do seu filho — sempre avaliar para identificar o alérgeno
- Urticária generalizada ou que não melhora em 24h com antialérgico
- Qualquer sinal de anafilaxia — inchaço na garganta, dificuldade para respirar, queda de pressão
- Reações recorrentes sem causa identificada
- Criança menor de 1 ano com qualquer reação suspeita de alergia
- Alergia que piora com o tratamento ou não responde ao antialérgico
Para fechar
Antialérgico é um medicamento seguro e eficaz — quando usado para a indicação certa, na dose certa, para a idade certa. Loratadina e cetirizina são as escolhas mais seguras em pediatria, com perfil de efeitos adversos bem estabelecido.
O que não é aceitável é usar antialérgico como curinga — para sedar criança, tratar resfriado ou qualquer sintoma que ‘parece alérgico’. Essa prática não tem respaldo científico e tem riscos reais.
Quando surgir uma reação alérgica no seu filho pela primeira vez, a primeira coisa é avaliar a gravidade. Se for leve, antialérgico oral e observação. Se for qualquer sinal de gravidade — pronto-socorro, sem hesitar.
Este post tem caráter informativo e educativo. Não substitui consulta médica ou farmacêutica. Em caso de dúvidas sobre alergias ou medicamentos para o seu filho, procure sempre um profissional de saúde.
— Mayara Parminondi
Farmacêutica · Mãe · A Mãe que Leu a Bula
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