Era 2h da manhã. O Heitor estava com febre, agitado, e eu — farmacêutica há mais de 10 anos — fiquei parada na frente do armário de remédios sem saber qual pegar primeiro. Não porque não soubesse a resposta. Mas porque quando é o seu filho, tudo parece mais difícil.
Se você já viveu uma cena parecida, esse post é pra você.
Dipirona, ibuprofeno e paracetamol são os três antitérmicos e analgésicos mais usados em crianças no Brasil. Os três funcionam. Os três são seguros quando usados corretamente. Mas eles não são a mesma coisa — e escolher o errado na hora errada pode ser ineficaz ou até prejudicial.
Vou te explicar a diferença real entre eles, quando cada um é a melhor escolha, e o que você precisa saber sobre doses — com toda a honestidade que esse assunto merece.
Primeiro: o que é febre e quando ela precisa de remédio?
Antes de falar dos remédios, preciso falar da febre — porque muita mãe trata o número no termômetro, não o filho.
Febre é definida como temperatura axilar igual ou acima de 38°C. Ela não é uma doença: é uma resposta do sistema imunológico, que eleva a temperatura do corpo para dificultar a multiplicação de vírus e bactérias. Em outras palavras, a febre está trabalhando para o seu filho.
| Então por que dar antitérmico? Não é para zerar o número no termômetro. É para dar conforto ao seu filho — reduzir o desconforto, o mal-estar e o risco de convulsão febril em crianças com histórico. Febre de 38,2°C numa criança ativa e bem-humorada pode não precisar de remédio. Febre de 38,5°C numa criança prostrada, com dor e chorando merece atenção. |
A decisão de medicar não deve ser automática. Observe seu filho, não só o termômetro.
Os três antitérmicos: como cada um funciona
Paracetamol (acetaminofeno)
O paracetamol é o antitérmico mais antigo e mais estudado para crianças. Ele age no sistema nervoso central, reduzindo a percepção de dor e diminuindo a febre — mas sem efeito anti-inflamatório relevante.
- Reduz febre e alivia dor
- Não tem ação anti-inflamatória
- Pode ser usado a partir do nascimento
- Intervalo entre doses: 4 a 6 horas
- Ponto de atenção: dose errada pode causar dano hepático — respeite o peso da criança
Ibuprofeno
O ibuprofeno pertence ao grupo dos anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). Além de reduzir febre e dor, ele tem ação anti-inflamatória — o que o torna especialmente útil em situações como dor de ouvido, inflamações e dores musculares.
- Reduz febre, alivia dor e combate inflamação
- Indicado a partir dos 6 meses de idade
- Intervalo entre doses: 6 a 8 horas — efeito mais duradouro que o paracetamol
- Ponto de atenção: não deve ser usado em crianças desidratadas, com problemas renais ou com dengue suspeita
Dipirona (metamizol)
A dipirona é muito popular no Brasil — e com razão. Ela é um potente analgésico e antitérmico, com início de ação rápido. É especialmente eficaz para febres altas e dores mais intensas.
- Potente antitérmico e analgésico
- Ação rápida — efeito começa em 20 a 30 minutos
- Indicada a partir dos 3 meses de idade (e com cautela até os 6 meses)
- Intervalo entre doses: 6 horas
- Ponto de atenção: raramente pode causar agranulocitose (queda dos glóbulos brancos) — é um efeito adverso sério, mas extremamente raro
| ⚠️ Sobre a dipirona e o medo: A dipirona foi banida em alguns países como EUA e Reino Unido por conta do risco de agranulocitose. No Brasil e em boa parte da Europa, ela continua liberada porque os estudos mostram que o benefício supera o risco quando usada corretamente. Não é um remédio proibido — é um remédio que precisa de respeito. |
Qual escolher em cada situação?
Não existe um único ‘melhor’. Existe o mais adequado para cada situação. Veja o raciocínio que uso como farmacêutica e mãe:
| Situação | Primeira escolha | Por quê |
| Febre simples, criança ativa | Paracetamol ou dipirona | Seguros e eficazes para esse quadro |
| Febre alta, criança prostrada | Dipirona | Ação mais rápida e potente |
| Febre com dor de ouvido ou inflamação | Ibuprofeno | Ação anti-inflamatória adicional |
| Suspeita de dengue | Paracetamol | Ibuprofeno e dipirona são contraindicados |
| Criança abaixo de 6 meses | Paracetamol ou dipirona (>3 meses) | Ibuprofeno não é indicado antes dos 6 meses |
Sobre as doses — com total honestidade
Aqui preciso ser direta com você: doses de antitérmicos para crianças são calculadas por peso, não por idade. E esse cálculo tem margem de segurança pequena — principalmente no paracetamol, onde dose insuficiente não funciona e dose excessiva pode lesionar o fígado.
Por isso, neste post não vou colocar uma tabela de doses genérica. Não porque não sei — sei. Mas porque o risco de uma mãe aplicar a dose do filho de 12 kg numa criança de 8 kg é real, e não quero ser responsável por isso.
O que eu recomendo: peça ao seu pediatra que te dê as doses exatas para o peso atual do seu filho e salve essa informação no celular. Assim você tem a referência correta sempre à mão, sem precisar calcular na madrugada.
O que posso te dizer com segurança é a lógica geral:
- dose habitual de 10 a 15 mg por kg de peso, a cada 4 a 6 horas
- dose habitual de 10 a 15 mg por kg de peso, a cada 6 horas
- dose habitual de 5 a 10 mg por kg de peso, a cada 6 a 8 horas
Essas faixas existem para que o pediatra ajuste conforme o quadro clínico. Não são valores absolutos para uso doméstico sem orientação.
O que nunca fazer
- Não alterne antitérmicos sem orientação médica. A prática de revezar dipirona e paracetamol não tem evidência científica robusta e aumenta o risco de erro de dose.
- Não dobre a dose se a febre não ceder rápido. Espere o tempo correto de ação do remédio antes de dar outra dose.
- Nunca use aspirina em crianças. Há risco de síndrome de Reye — o uso é contraindicado para menores de 12 anos.
- Não trate febre abaixo de 38°C com antitérmico automaticamente. Avalie o estado geral da criança antes de medicar.
- Não use ibuprofeno se suspeitar de dengue, desidratação ou problemas renais.
Quando ir ao pronto-socorro — não espere
| Leve ao médico imediatamente se: • Bebê abaixo de 3 meses com qualquer febre acima de 38°C • Febre acima de 39,5°C que não cede com antitérmico • Febre que dura mais de 3 dias sem causa identificada • Criança com dificuldade para respirar, manchas na pele, rigidez no pescoço ou convulsão • Criança muito prostrada, sem responder normalmente • Qualquer dúvida que você não consiga resolver em casa |
Para fechar
Dipirona, ibuprofeno e paracetamol são ferramentas. Boas ferramentas, seguras e acessíveis — mas que funcionam melhor quando você entende o que está usando e por quê.
Não existe um único ‘melhor antitérmico para criança’. Existe o mais adequado para a situação do seu filho naquele momento. E agora você tem as informações para fazer essa escolha com mais segurança.
Se ficou com dúvida sobre a dose específica para o seu filho, ligue para o pediatra ou vá a uma farmácia com farmacêutico responsável. Esse profissional existe exatamente para isso.
Este post tem caráter informativo e educativo. Não substitui consulta médica ou farmacêutica. Em caso de dúvidas sobre a saúde do seu filho, procure sempre um profissional de saúde.
— Mayara Parminondi
Farmacêutica · Mãe de verdade · A Mãe que Leu a Bula
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