Quais vacinas seu filho precisa, quando tomar e por que o calendário vacinal existe — sem medo e sem achismo.
Na primeira consulta depois do nascimento do meu filho, a pediatra já entregou um papel com o calendário vacinal. Datas, nomes, doses. Eu, farmacêutica, olhei para aquela lista e pensei: quantas mães recebem esse papel sem entender nada do que está escrito?
Vacinas são um dos temas mais importantes — e mais distorcidos — da saúde infantil. De um lado, mães com medo dos efeitos colaterais. Do outro, desinformação organizada sobre supostos riscos que a ciência já refutou repetidas vezes.
Neste artigo, vou te explicar o que é cada vacina do calendário infantil brasileiro, quando aplicar, o que esperar depois e como lidar com os mitos mais comuns — com base em evidência, não em opinião.
Por que vacinar? A resposta que vai além do ‘porque é obrigatório’
Vacinas funcionam por um princípio simples: apresentam ao sistema imunológico um agente inofensivo (vírus inativado, fragmento de proteína ou vírus atenuado) que ensina o organismo a reconhecer e combater a doença real antes que ela apareça.
O resultado é imunidade sem precisar adoecer. E quando a maioria da população está vacinada, cria-se a chamada imunidade coletiva — que protege também quem não pode se vacinar, como recém-nascidos e imunossuprimidos.
Doenças que matavam milhares de crianças por ano no Brasil — poliomielite, sarampo, difteria — foram controladas ou eliminadas graças à vacinação. Não por acaso. Por cobertura vacinal.
| 📌 Dado importante: O Brasil tem um dos melhores programas de vacinação pública do mundo — o PNI (Programa Nacional de Imunizações). Todas as vacinas do calendário básico são gratuitas no SUS e aprovadas pela Anvisa. |
Calendário vacinal infantil 2026 — guia completo por idade
Baseado no calendário oficial do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Algumas vacinas adicionais podem ser recomendadas pelo pediatra dependendo do histórico e condições da criança.
🍼 Ao nascer
| Vacina | Protege contra | Doses |
| BCG | Tuberculose grave (meningite tuberculosa, tuberculose miliar) | 1 dose única |
| Hepatite B | Vírus da hepatite B — prevenção de doença hepática crônica | 1ª dose (nas primeiras 12h de vida) |
📅 2 meses
| Vacina | Protege contra | Doses |
| Pentavalente (DTP + Hib + HepB) | Difteria, tétano, coqueluche, Haemophilus influenzae b, hepatite B | 1ª dose |
| VIP (Poliomielite inativada) | Poliomielite (paralisia infantil) | 1ª dose |
| Pneumocócica 10-valente | 10 sorotipos de pneumococo — pneumonia, meningite, otite | 1ª dose |
| Rotavírus humano (VORH) | Gastroenterite grave por rotavírus | 1ª dose (oral) |
| Meningocócica C | Meningite meningocócica do sorogrupo C | 1ª dose |
📅 3 meses
| Vacina | Protege contra | Doses |
| Meningocócica ACWY | Meningite meningocócica dos sorogrupos A, C, W e Y | 1ª dose |
📅 4 meses
| Vacina | Protege contra | Doses |
| Pentavalente | Difteria, tétano, coqueluche, Hib, hepatite B | 2ª dose |
| VIP | Poliomielite | 2ª dose |
| Pneumocócica 10-valente | Pneumococo | 2ª dose |
| Rotavírus humano | Gastroenterite por rotavírus | 2ª dose (oral — última dose) |
| Meningocócica ACWY | Meningite meningocócica A, C, W, Y | 2ª dose |
📅 6 meses
| Vacina | Protege contra | Doses |
| Pentavalente | Difteria, tétano, coqueluche, Hib, hepatite B | 3ª dose |
| VIP | Poliomielite | 3ª dose |
| Pneumocócica 10-valente | Pneumococo | 3ª dose (reforço) |
| Influenza (gripe) | Vírus influenza — gripe sazonal | 1ª dose (anual) |
📅 9 meses
| Vacina | Protege contra | Doses |
| Febre amarela | Vírus da febre amarela | 1ª dose |
| Meningocócica C | Meningite meningocócica C | Reforço |
📅 12 meses (1 ano)
| Vacina | Protege contra | Doses |
| Tríplice viral (SCR) | Sarampo, caxumba, rubéola | 1ª dose |
| Meningocócica ACWY | Meningite meningocócica A, C, W, Y | Reforço |
| Varicela (catapora) | Vírus varicela-zóster | 1ª dose |
| Hepatite A | Vírus da hepatite A | 1ª dose |
📅 15 meses
| Vacina | Protege contra | Doses |
| DTP (tríplice bacteriana) | Difteria, tétano, coqueluche | 1º reforço |
| VOP (poliomielite oral) | Poliomielite | 1º reforço (oral) |
| Tríplice viral + Varicela (Tetraviral) | Sarampo, caxumba, rubéola, varicela | 2ª dose |
| Hepatite A | Hepatite A | 2ª dose |
📅 4 anos
| Vacina | Protege contra | Doses |
| DTP | Difteria, tétano, coqueluche | 2º reforço |
| VOP | Poliomielite | 2º reforço (oral) |
| Varicela | Catapora | Reforço |
| Febre amarela | Febre amarela | Reforço (dose única para a vida) |
Efeitos colaterais: o que é normal e o que é sinal de alerta
Toda vacina pode causar reações — e isso é esperado. É o sistema imunológico respondendo ao estímulo. A maioria das reações é leve e passa em 1 a 3 dias.
| Reação | O que fazer |
| Dor, vermelhidão ou inchaço no local | Compressa fria local — passa em 1 a 2 dias |
| Febre baixa (até 38,5°C) | Antitérmico se necessário — paracetamol ou dipirona |
| Irritabilidade, choro, sonolência | Normal — conforte o bebê, observe |
| Febre acima de 39°C persistente | Contate o pediatra |
| Reação alérgica: urticária, dificuldade respiratória | Pronto-socorro imediatamente |
| Convulsão febril (rara) | Pronto-socorro imediatamente |
Se o seu filho ficar com febre após a vacina, a dúvida sobre qual antitérmico usar é comum — explico as diferenças entre dipirona, ibuprofeno e paracetamol em Dipirona, ibuprofeno ou paracetamol: qual dar para criança e quando?
Os mitos mais comuns sobre vacinas — respondidos com ciência
❌ ‘Vacina causa autismo’
Não causa. O estudo que originou esse mito foi publicado em 1998, foi investigado, os dados foram considerados fraudulentos e o autor perdeu o registro médico. Desde então, dezenas de estudos com milhões de crianças em vários países confirmaram: não há relação entre vacinas e autismo.
❌ ‘Meu filho é saudável, não precisa de vacina’
Vacinas protegem exatamente crianças saudáveis — antes que elas sejam expostas à doença. Criança saudável sem vacina continua vulnerável a doenças graves como meningite e coqueluche.
❌ ‘Dar muitas vacinas de uma vez sobrecarrega o sistema imunológico’
O sistema imunológico de um recém-nascido é capaz de responder a milhares de antígenos simultaneamente. As vacinas combinadas foram desenvolvidas exatamente para estimular imunidade com o menor número de injeções possível.
❌ ‘Vacina tem mercúrio e faz mal’
Algumas vacinas antigas continham timerosal, um conservante com etilmercúrio — diferente do metilmercúrio tóxico encontrado em peixes. O etilmercúrio é eliminado rapidamente pelo organismo. E a maioria das vacinas do calendário atual já não contém timerosal.
❌ ‘A doença natural imuniza melhor do que a vacina’
Para algumas doenças, a imunidade natural é duradoura — mas o preço é adoecer, com todos os riscos de complicações. Para outras, como tétano, a doença natural não gera imunidade duradoura. Vacina é imunidade sem risco.
Caderneta de vacinação: por que ela importa tanto
A caderneta de vacinação é o documento que registra todas as vacinas que seu filho tomou — com data, lote e unidade de saúde. É o histórico imunológico do seu filho.
- Guarde em local seguro e leve a toda consulta pediátrica
- Digitalize — tire foto de cada página e salve na nuvem
- Em caso de perda, procure a UBS onde as vacinas foram aplicadas para reconstituir o histórico
- Vacinas atrasadas podem e devem ser feitas — converse com o pediatra sobre como retomar o calendário
O que nunca fazer
- Pular vacinas por medo de efeitos colaterais — os riscos da doença são sempre maiores
- Atrasar o calendário sem orientação médica — janelas de imunização existem por razões biológicas
- Basear decisões de vacinação em grupos de WhatsApp ou perfis antivacina
- Vacinar criança doente com febre acima de 38°C — aguardar melhora e reagendar
- Ignorar reações intensas após vacina sem comunicar ao pediatra
Ficou com dúvida sobre suplementos que acompanham o calendário vacinal, como vitamina D? Veja em Vitamina D para bebê: quem realmente precisa?
Se seu filho tiver febre após a vacina e você estiver amamentando, saiba o que é seguro tomar em [Remédio passa pelo leite materno? O que a ciência diz].
Para fechar
Vacinas são uma das intervenções de saúde pública mais estudadas, mais seguras e mais eficazes da história da medicina. Não são perfeitas — nenhuma intervenção médica é. Mas os dados são claros: os benefícios superam amplamente os riscos.
Como farmacêutica, analiso evidência. Como mãe, vacino meu filho seguindo o calendário completo. Não por obrigação — por convicção baseada em ciência.
Se você tem dúvidas específicas sobre alguma vacina, converse com o pediatra. Questionar com base em informação é diferente de recusar com base em medo.
Este post tem caráter informativo e educativo. O calendário vacinal pode sofrer atualizações — consulte sempre o pediatra e o site do Ministério da Saúde para informações oficiais atualizadas.
— Mayara Parminondi
Farmacêutica · Mãe de verdade · A Mãe que Leu a Bula
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