Chupeta: dar ou não dar? O que a ciência diz

junho 13, 2026
Escrito por Mayara Parminondi

Mayara Parminondi escreve sobre maternidade baseada em evidências, ajudando mães a cuidar do bebê com mais segurança, clareza e sem achismo. 

Benefícios reais, riscos reais e como usar com segurança — sem achismo de nenhum dos lados.

Poucos objetos dividem tanto as opiniões na maternidade quanto a chupeta. De um lado, mães que a usam sem culpa e agradecem pela paz que trouxe. Do outro, pressão para não usar — ‘vai estragar os dentes’, ‘vai atrapalhar a amamentação’, ‘cria dependência’.

A ciência não é tão dramática quanto os grupos de WhatsApp. Chupeta tem benefícios reais, tem riscos reais, e a decisão de usar ou não depende de momento, contexto e como ela é usada.

Vou te dar as informações para tomar essa decisão com tranquilidade — sem pressão de nenhum dos lados.

O que a ciência diz sobre chupeta — benefícios reais

1. Redução do risco de morte súbita do lactente (SMSL)

Esse é o benefício mais robusto e menos conhecido. Estudos mostram que o uso de chupeta durante o sono está associado a redução de até 50% no risco de morte súbita do lactente. A AAP recomenda oferecer chupeta na hora de dormir por esse motivo — mas sem forçar se o bebê não aceitar.

O mecanismo exato não é completamente entendido, mas acredita-se que a chupeta mantém o bebê em sono mais leve e favorece posicionamento adequado das vias aéreas.

2. Satisfação da sucção não nutritiva

Bebês têm necessidade de sucção que vai além da alimentação — é um reflexo primitivo de conforto e regulação. A chupeta satisfaz essa necessidade de forma segura, especialmente entre as mamadas.

3. Alívio da dor em procedimentos

Estudos em contexto hospitalar mostram que a sucção não nutritiva — chupeta — reduz a percepção de dor em procedimentos como coleta de sangue e vacinas em recém-nascidos.

4. Auxílio na regulação emocional

Para bebês pequenos, a chupeta pode ajudar na autorregulação — capacidade de se acalmar. Isso é especialmente útil nos primeiros meses, quando o sistema nervoso ainda está imaturo.

Os riscos reais — o que a ciência confirma

RiscoO que a evidência dizComo minimizar
Interferência na amamentaçãoRisco real nas primeiras 4 semanas — pode causar confusão de bicos e reduzir frequência das mamadasEsperar a amamentação estar estabelecida (4 semanas) antes de introduzir
Otite média (infecção de ouvido)Uso contínuo associado a maior incidência de otite — especialmente após os 6 mesesLimitar uso após os 6 meses; não usar durante infecções respiratórias
Alterações dentáriasUso prolongado além dos 2-3 anos pode causar alterações na oclusão dentáriaRetirar até os 2 anos; nunca usar além dos 3 anos
Dependência e dificuldade de retiradaQuanto mais tempo de uso, mais difícil a retiradaLimitar uso progressivamente após os 6 meses
HigieneChupeta contaminada pode transmitir micro-organismosEsterilizar regularmente; não ‘limpar’ na boca dos pais
📌  A recomendação atual da AAP e SBP:  

✅ Oferecer chupeta na hora de dormir a partir de 4 semanas (após amamentação estabelecida)
✅ Não forçar se o bebê não aceitar
✅ Não recolocar se cair durante o sono
⚠️ Limitar uso após os 6 meses
❌ Evitar uso além dos 2 a 3 anos

Chupeta e amamentação — a resposta honesta

Essa é a questão que mais preocupa mães que amamentam. A resposta depende do momento:

  • Primeiras 4 semanas — risco real de interferência. Amamentação ainda está se estabelecendo, produção se regulando, bebê aprendendo a pegar. Melhor esperar
  • Após 4 semanas com amamentação estabelecida — evidência de interferência é muito mais fraca. Bebê que mama bem dificilmente vai ‘esquecer’ como mamar por causa da chupeta
  • Bebês que não estão amamentando — sem restrição relacionada à amamentação

Se você tem dúvidas sobre amamentação e como a chupeta se encaixa na sua rotina, veja o guia completo em Amamentação: dúvidas mais comuns respondidas com base científica

Como escolher a chupeta certa — o que olhar

  • Bico ortodôntico ou fisiológico — formato anatômico que respeita o desenvolvimento da boca. Preferível ao bico redondo tradicional
  • Material do bico — silicone é mais higiênico e durável; látex é mais macio mas dura menos e pode causar alergia
  • Tamanho adequado à idade — chupetas têm fases: 0-6 meses, 6-18 meses, 18+ meses. Use o tamanho correto
  • Sem BPA — verificar no rótulo
  • Escudo ventilado — orifícios no escudo reduzem umidade e irritação na pele ao redor da boca
  • Registro Anvisa — produto regularizado tem composição verificada

Quando e como oferecer — boas práticas

  • Oferecer na hora de dormir — principalmente durante a noite, quando o benefício contra SMSL é maior
  • Não oferecer no lugar da mamada — se o bebê está com fome, a chupeta não resolve
  • Não mergulhar em mel, açúcar ou qualquer alimento — risco de cáries e botulismo
  • Esterilizar diariamente nos primeiros meses — ferver ou usar esterilizador
  • Trocar regularmente — verificar sinais de deterioração no bico (silicone pode rachar)
  • Nunca prender na roupa com cordão longo — risco de estrangulamento
⚠️  O que nunca fazer:  

• ‘Limpar’ a chupeta na boca dos pais — transfere bactérias causadoras de cárie
• Mergulhar em mel — risco de botulismo em menores de 1 ano
• Prender com cordão no pescoço — risco de estrangulamento
• Usar além dos 3 anos — risco dentário significativo
• Forçar o bebê que não quer — nem toda criança aceita chupeta, e tudo bem

Como tirar a chupeta — quando e como

Quanto mais cedo, mais fácil. A janela ideal é entre 12 e 24 meses — depois que a necessidade de sucção não nutritiva diminuiu naturalmente, mas antes de criar dependência emocional muito forte.

Estratégias que funcionam:

  • Redução gradual — limitar progressivamente os momentos de uso antes de retirar completamente
  • Substituição — oferecer outras formas de conforto no horário em que a chupeta seria usada
  • A ‘fada da chupeta’ — para crianças maiores, rituais de despedida funcionam bem
  • Consistência — uma vez decidido, manter. Ceder aumenta a dependência
  • Não reintroduzir — se o bebê está passando por fase difícil (doença, viagem), esperar a fase passar antes de tentar

Criança acima de 3 anos com chupeta: procure orientação do pediatra e do dentista. Pode ser necessária abordagem comportamental específica.

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Sobre sono do bebê — e como a chupeta se encaixa na rotina noturna — veja em Sono do bebê: o que é normal por faixa etária (e o que não é)

E sobre cólica — quando a chupeta pode ajudar na regulação do bebê — veja em Cólica em bebê: o que funciona de verdade (e o que é mito)

Para fechar

Chupeta não é vilã nem solução mágica. É uma ferramenta — com benefícios reais, riscos reais e momento certo de uso.

Se você decidir usar: introduza após 4 semanas, use na hora de dormir, limite após os 6 meses e planeje a retirada antes dos 2 anos.

Se você decidir não usar: tudo bem também. Nem todo bebê precisa de chupeta, e há outras formas de oferecer conforto e sucção não nutritiva.

A decisão é sua — e qualquer que seja, pode ser a certa.

Este post tem caráter informativo e educativo. Não substitui consulta médica ou odontológica. Em caso de dúvidas sobre o uso de chupeta, converse com o pediatra ou dentista do seu filho.

— Mayara Parminondi

Farmacêutica · Mãe · A Mãe que Leu a Bula

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